Ronaldo era especial, seu coração era evidentemente maior que os corações normais. Nele, Ronaldo tinha um espaço para cada pessoa que conhecia. Tinha um espaço para sua mãe ( e esse era bem grande), para o pai, as três irmãs dividiam o mesmo espaço. Tinha também um espaço para Léo, o cachorro, um espaço para o papagaio, um espaço para Thiago, o vizinho, para o Zeca, o Alfredo, o Carlão, o Zé, o Manuel, tinha até um espaço para o seu geraldo, bem pequeno, é verdade, mas ninguém podia dizer que não tinha. Enfim, Ronaldo guardava no seu coração um espaço (mesmo que de minuto como o do seu Geraldo) para todo mundo. Ele guardava também um espaço para Lúcia, sua esposa. E amava Lúcia como nunca amara nenhuma outra. Ela, por sua vez, o amava com todos os espaços do seu coração, o que não era grande coisa se comparado ao dele, mas dava para se contar como sendo um grande amor. Como eu já havia dito, o coração de Ronaldo era enorme, então ele se dava o direito de amar também Cecília. E a amava como nunca amara nenhuma outra. Cecília, por outro lado, não o amava tanto quanto Lúcia, mas por questões que vão além do vão amor sentimental, e se materializam (hora em brincos, hora em anéis, hora num carro vermelho esporte), Cecília conseguia ao menos fingir que o amava. E fingia muito bem. Ronaldo seguia bem sua vida, amava todos e talvez por isso fosse também amado por todos. Até que um dia conheceu Clara. E resolveu que iria amá-la também. Mas dessa vez era diferente, o amor era grande demais para um hóspede só, então Ronaldo guardou todos os espaços vazios para ela - que recusou (achou pouco, talvez). Então Ronaldo começou a esvaziar alguns vãos a mais para Clara, que rejeitava. Gostava da insistência que ele lhe mandava bombons, flores e cartas perfumadas, mas não correspondia, não podia. Ela, diferente de Ronaldo e como a maioria das pessoas, amava um só e esse era outro. Tinha por Ronaldo um sentimento forte, sim. Um misto de pena e dó. E só, nada mais. Lúcia e Cecília continuaram atrás de Ronaldo. Lúcia mais que Cecília, mas Cecília fingia muito bem. Pena que no coração dele não havia mais espaço. Todas as vagas estavam reservadas, por tempo indeterminado, para uma só pessoa: Clara, a qual ele quem ia atrás e inexplicavelmente, gostava mais. Agora Ronaldo vaga atrás de Clara para clarear seu coração, que se encontra triste, vazio e escuro. Alguns dizem que ele ainda bate, outros que são apenas ecos do passado vagando naquela imensidão. O que se sabe ao certo, é que alguns hotéis são grandes demais para um hóspede só.
(Raoni Assis)